“Temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” Com isso também a luta de Deus contra nós chega ao fim. Deus odiava a vontade que não queria submeter-se a ele. Por vezes incontáveis ele chamou, admoestou, pediu e ameaçou até que sua ira sobre nós fez esquecer qualquer paciência para conosco. Ele levantou o braço para nos golpear, investiu e acertou. Ele acertou o único inocente da face da terra. Foi seu Filho amado, nosso Senhor, Jesus Cristo. Jesus Cristo morreu por nós na cruz, abatido pela ira de Deus. O próprio Deus o enviara para essa missão. A ira de Deus foi estancada quando seu filho se submeteu à sua vontade e à sua justiça até a morte. Mistério maravilhoso - Deus tinha firmado a paz conosco através de Jesus Cristo.
“Temos paz com Deus.” Sob a cruz há paz. Aqui há submissão à vontade de Deus, aqui é o ponto final de nossa própria vontade, aqui há paz e sossego em Deus, aqui há paz de consciência no perdão de todos os nossos pecados. Aqui sob a cruz “temos acesso, pela fé, a essa graça na qual estamos firmes”, é o acesso diário à paz com Deus. Aqui está o caminho que existe no mundo para encontrar paz com Deus. Em Jesus Cristo, a ira de Deus é aplacada e nós somos dominados para dentro da vontade de Deus. Por isso a cruz de Jesus Cristo é motivo de alegria eterna e esperança pela glória de Deus para sua comunidade.
“Gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. Na cruz, a justiça e a vitória de Deus na terra já começaram. Aqui um dia tudo será revelado definitivamente ao mundo. A paz que recebemos será paz eterna e gloriosa no reino de Deus.
Ainda que gostássemos de parar por aqui, cheios da maior felicidade, que poderia preencher um ser humano neste mundo, a saber, cheio do reconhecimento de Deus em Jesus Cristo, da paz de Deus na cruz - a Escritura ainda não nos larga. “E não somente isto” - é o que lemos. Isso significa que ainda não está dito tudo. Mas o que restaria dizer depois de se falar da cruz de Jesus Cristo, da paz de Deus em Jesus Cristo? Pois bem, querida comunidade, ainda há que ser dita mais uma palavra, uma palavra sobre você, uma palavra sobre sua vida sob a cruz, uma palavra de como Deus quer pôr à prova a vida de vocês na paz de Deus, para que paz não seja apenas uma palavra, mas sim realidade. Ainda é preciso dizer uma palavra para deixar claro que vocês ainda permanecerão por um momento neste mundo e como deverão preservar a paz.
É por isso que está dito: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações”. Nosso comportamento nas tribulações que nos sobrevierem é que mostrará se realmente encontramos a paz de Deus. Existem muitos cristãos que dobram seus joelhos diante da cruz de Cristo, mas que se opõem e resistem a qualquer tribulação em suas vidas. Eles acreditam que amam a cruz de Cristo, mas odeiam a cruz na própria vida. Dessa maneira, em verdade, eles odeiam também a cruz de Jesus Cristo, desprezam a cruz na medida em que usam todos os meios para dela fugir. Quem sabe por experiência própria que encara sofrimento e tribulação em sua vida só como algo maligno e inimigo, este pode estar certo de que ainda não encontrou a paz com Deus. A rigor, ele procurou apenas a paz com o mundo e talvez tenha pensado que, através da cruz de Cristo, encontraria paz consigo mesmo e responderia às suas próprias perguntas, ou seja, que teria uma íntima paz da alma. Ele usou a cruz, mas não a amou. Ele procurou a paz somente em causa própria. No entanto, quando sobrevêm tribulação, a paz se esvai rapidamente. Não se tratava de uma paz com Deus, pois ele odiava a tribulação que Deus envia.
Quem, em sua vida, odeia tribulação, renúncia, dificuldades, calúnias e prisão, poderá usar as palavras mais belas sobre a cruz, mas, na verdade, odeia a cruz de Cristo e não tem paz com Deus. Por outro lado, quem ama a cruz de Cristo, que encontrou nele a paz, este começa a amar também a tribulação em sua vida e, finalmente, poderá dizer com as Escrituras: “Nos gloriamos nas próprias tribulações”.
Nos últimos anos, nossa igreja sofreu diversas tribulações. Destruição de sua ordem, invasão de uma pregação falsa, muita inimizade, palavras maldosas e calúnias, prisão e sofrimento de toda ordem; isso até agora. Ninguém sabe que tribulações ainda esperam pela igreja. Em meio a tudo isso, será que compreendemos que é o próprio Deus que nos pôs e põe à prova, que apenas uma pergunta tinha importância, a saber, se temos paz com Deus ou se até agora vivemos em uma paz bem mundana? Quanta resmungação e resistência, quanta reclamação e ódio contra a tribulação foram postos a descoberto em nós! Quanta negação, quanta esquiva, quanto medo quando a cruz de Jesus lançava uma sombra, ainda que muito pequena, sobre nossa vida particular. Quantas vezes imaginamos que poderíamos manter a paz com Deus esquivando-nos do sofrimento, da renúncia, da hostilidade, de pôr a nossa existência em risco! E o que é pior: quantas vezes tivemos que ouvir de nossos irmãos cristãos que eles desprezavam o sofrimento dos irmãos - isso unicamente porque a própria consciência não os deixava descansar?
Deus, porém, não receberá ninguém em seu reino, cuja fé não tenha recebido a tribulação como algo legítimo. “Temos que entrar no reino de Deus através de muitas tribulações”. Por isso devemos aprender a gostar das nossas tribulações, sim, temos que nos alegrar por elas e enaltecê-las, antes que seja tarde.
Como é que isso deve acontecer? “Sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde”. É assim que a palavra de Deus nos ensina a ver e compreender as tribulações na perspectiva correta. As tribulações, que na vida nos parecem tão duras e adversas, na verdade, estão cheias dos maiores tesouros que um cristão pode encontrar. Elas são como uma concha dentro da qual se esconde a pérola. São como um poço de mina profundo, no qual a gente descobre uma coisa atrás da outra à medida que desce às suas profundezas: primeiro ferro, em seguida prata e finalmente ouro. Tribulação produz, primeiro, perseverança; depois, experiência e, finalmente, esperança. Quem se esquiva da tribulação despreza o maior presente de Deus para os seus.
“Tribulação produz perseverança.” Perseverança significa “permanecer sob”, não se livrar da tribulação, mas, sim, carregá-la. Hoje, na igreja, sabemos muito pouco sobre a bênção peculiar do suportar.
Suportar e não se livrar, suportar sem desvanecer, suportar como Cristo suportou a cruz, suportar e lá embaixo encontrar Cristo. Se Deus impõe uma tribulação, o perseverante baixa sua cabeça e crê que para ele é bom ser humilhado - permanecer sob. Ficar firme, permanecer forte quer dizer não ceder por fragilidade, não se esquivar, não se entregar a uma felicidade do sofrimento, mas se tornar forte sob a tribulação como graça de Deus e manter a paz de Deus sem vacilar. A paz de Deus está com os perseverantes.
“Perseverança produz experiência.” A vida cristã não é feita de palavras, mas de experiência. Ninguém é cristão sem experiência. Não estamos falando da experiência de vida, mas da experiência com Deus. Também não estamos falando de todo e qualquer tipo de experiência com o sagrado, mas da experiência que reside na comprovação da fé e da paz de Deus, da experiência da cruz de Jesus Cristo. Somente os perseverantes são experientes. Quem não é perseverante não experimenta nada. Aquele a quem Deus deseja presentear com tal experiência - seja a uma pessoa individual ou à igreja - ele envia muita tribulação, inquietação e medo; esse precisa clamar constantemente pela paz de Deus. A experiência da qual estamos falando leva-nos à profundidade do inferno e ao abismo da morte, ao precipício da culpa e à escuridão da descrença. Em tudo isso experimentamos, diariamente, mais e mais o poder e a vitória de Deus, o pacto de paz junto à cruz de Cristo.
É por isso que experiência produz esperança. Cada tribulação suportada já é um prelúdio da última vitória; cada onda vencida leva-nos para mais perto da terra ansiada. E por isso que com a experiência cresce a esperança; na experiência da tribulação já se espelha e se pode pressentir o esplendor eterno.
“Esperança não confunde.” Onde ainda há esperança, não há derrota, ainda que haja muita fragilidade, muita miséria e desolação, muito clamor cheio de medo; a vitória já é perceptível. Este é o mistério do sofrimento na igreja e na vida cristã, a saber, que justamente o portal onde está escrito: abandona a esperança, o portal do sofrimento, da perda e da morte, se transforma para nós no portal da grande esperança em Deus, no portal da glória e do esplendor. “Esperança não confunde.” Será que ainda temos essa grande esperança em Deus na igreja e para a igreja? Se assim for, tudo está ganho. Não mais a temos? Nesse caso tudo está perdido. “Tribulação produz perseverança, e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança; esperança não confunde” - isso tudo vale somente para aquele que encontrou e que persevera na paz de Deus em Jesus Cristo e de quem se diz: “Pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações através do Espírito Santo que nos é dado”. Quem é amado por Deus e quem, por isso, ama a Deus somente e acima de todas as coisas, este e somente este poderá falar assim. Não, não, a seqüência dos degraus da tribulação em direção à esperança não é nenhuma realidade terrena óbvia. Lutero disse que a seqüência poderia ter bem outra designação: Tribulação produz impaciência; impaciência produz obstinação; obstinação produz desespero; desespero confunde tudo. Essa é a leitura quando perdemos a paz de Deus, quando uma paz terrena com o mundo se torna mais importante do que a paz com Deus, quando amamos as seguranças de nossas vidas mais do que a Deus. Aí sim a tribulação será nossa perdição.
No entanto, o amor de Deus foi derramado em nossos corações. Aquele a quem Deus concede, através do Espírito Santo, que nele aconteça o inconcebível, a saber, que ele comece a amar a Deus por causa de Deus e não por dádivas e bens terrenos, também não por causa da paz em si, mas radicalmente por causa de Deus. Quem experimentou o amor de Deus na cruz de Cristo, quem é guiado pelo Espírito Santo a ponto de nada mais desejar do que ter parte no amor de Deus e nada mais - este fala a partir desse amor e, com ele, toda a comunidade: Nós temos paz com Deus. Nós nos gloriamos das tribulações. O amor de Deus foi derramado em nossos corações. Amém.

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